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Só existe Réveillon graças a “essa gente”

  • Foto do escritor: Paulo de Oxalá
    Paulo de Oxalá
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura
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Foto: Gira na praia - Imagem inspirada na visão de Pai Paulo de Oxalá


Festa foi criada a partir da fé nos Orixás


As religiões de matriz africana ocupam papel central na formação cultural do Réveillon brasileiro, especialmente no Rio de Janeiro. Muito antes de Copacabana se consolidar como palco do maior espetáculo de virada do mundo, práticas religiosas ligadas aos terreiros já marcavam a passagem do ano com rituais de renovação, esperança e transformação. Vestir branco, oferecer flores ao mar e pular sete ondas são gestos que nasceram desses espaços sagrados e atravessaram o tempo, tornando-se símbolos nacionais que precisam ser reconhecidos como marco central deste grandioso Réveillon de Copacabana.

 

Essa centralidade histórica, no entanto, segue sendo negligenciada. Pelo segundo ano consecutivo, o prefeito Eduardo Paes autorizou a instalação de um palco gospel, voltado exclusivamente à música cristã, na areia de Copacabana, sem garantir espaço para cantores e expressões musicais das religiões de matriz africana. Diante das críticas sobre a ausência de equidade no tratamento destinado a essas tradições na maior festa de Ano-Novo do país, Paes se manifestou em uma rede social afirmando ser “impressionante o nível de preconceito dessa gente”. Na publicação, o prefeito defendeu que a música gospel pode e deve ter seu espaço, assim como o samba, o rock, o piseiro, o frevo, a música baiana, a MPB e a bossa nova, ressaltando ainda que o povo cristão tem o direito de celebrar. Ao final, escreveu “Amém! Axé! Shalom! Namaste!”.


Quando se fala em “essa gente”, trata-se do povo que construiu a cidade e ajudou a construir o Brasil. Trabalhadores e religiosos que, apesar de historicamente invisibilizados, seguem sustentando a identidade cultural do Rio de Janeiro. O espaço é público, portanto é de todos, mas gente é vida, e vida é força, alegria e transformação. E foi essa gente, das religiões de matriz africana, que estruturou a base do Réveillon que hoje se consagra como o maior do mundo.


Para o Babalawô Ivanir dos Santos, o debate em torno da festa não diz respeito à existência de um palco gospel, mas à ausência de igualdade no tratamento institucional entre as tradições religiosas. Segundo ele, a diversidade não pode permanecer apenas no campo do discurso e precisa se refletir de forma concreta na ocupação do espaço público e nas decisões oficiais.

 

O Babalorixá Leonardo Mattos de Xangô ressalta que a reivindicação das comunidades de terreiro não está centrada na escolha de ritmos musicais, mas no reconhecimento de um protagonismo histórico. Ele lembra que, embora o prefeito Eduardo Paes tenha se desculpado pela ausência de determinados gêneros na programação do Rio Réveillon 2026, a pauta dos povos de matriz africana envolve reparação simbólica e cultural em um evento cuja origem está diretamente ligada a essas tradições.

 

Pai Márcio de Jagun chama atenção para o caráter histórico da cerimônia dedicada a Yemanjá em Copacabana, iniciada no final dos anos 1950, quando terreiros passaram a ocupar a praia na passagem do ano. Entre os pioneiros estava Tata Tancredo da Silva Pinto, liderança religiosa negra de grande importância à época. Com o crescimento da festa e sua transformação em um evento turístico de grandes proporções, os rituais foram sendo progressivamente afastados da data principal, passando do dia 31 de dezembro para dias anteriores no calendário oficial.

 

As lideranças também destacam que, apesar de pedidos recorrentes, nunca foi autorizada a utilização do palco principal do Réveillon para apresentações culturais ligadas aos terreiros. A criação recente de um palco exclusivo para a música gospel reforçou, segundo elas, a sensação de exclusão e a falta de reconhecimento do papel histórico das religiões de matriz africana na construção da festa.

 

Eu, Pai Paulo de Oxalá, afirmo que esse debate representa a defesa de um legado ancestral que não pode ser apagado. O Rio de Janeiro concentra um dos maiores territórios de terreiros do país, evidenciando uma ancestralidade viva, presente na cultura, na música e na espiritualidade da cidade. Garantir espaço às tradições de matriz africana no Réveillon é reconhecer que a cidade foi construída pela fé, pela cultura e pela resistência de um povo que sempre esteve presente.

 

Que o Réveillon do Rio de Janeiro siga sendo celebrado como expressão de diversidade, memória e respeito, sob a proteção de Yemanjá e dos Orixás, reafirmando suas raízes e sua história. Afinal, só existe Réveillon graças a “essa gente”.

 

Um feliz 2026 para todos, com muito axé!

 
 
 

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Tags: Babalorixá, Simpatia, Búzios, Tarot e numerologia

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