Essa gente somos nós diante da Prefeitura do Rio
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Foto: Reunião do ato ‘Essa gente somos nós’ – internet
Abraço cobra respeito, memória e igualdade religiosa
Palavras soltas não são inofensivas. Elas carregam peso, atravessam histórias e produzem efeitos reais. Quando lançadas por quem governa, ganham ainda mais força, porque moldam narrativas, legitimam posturas e atingem diretamente pessoas e coletividades.
Foi assim que o prefeito Eduardo Paes entrou no centro do debate ao classificar como preconceito a reação de lideranças religiosas de matriz africana diante da política adotada no Réveillon do Rio. A fala repercutiu porque não se tratava de um ataque gratuito, mas de uma reivindicação por igualdade. O que se pediu não foi exclusão de ninguém, e sim reconhecimento.
O Réveillon carioca não surgiu do nada nem foi criado por decretos recentes. Ele nasce dos terreiros, da fé nos Orixás, dos rituais de passagem que há décadas ocupam o mar, a areia e a esperança. Vestir branco, pular ondas, ofertar flores e desejar caminhos abertos são práticas que vêm do povo de axé. O réveillon foi feito por nós.
Por isso, o debate não é sobre palco gospel. Não é sobre impedir manifestações cristãs. É sobre o uso do espaço público e sobre o tratamento institucional dado às diferentes tradições religiosas. Quando uma fé é visibilizada pelo poder público e outra é empurrada para o silêncio, não se trata de diversidade. Trata-se de desequilíbrio.
Não é palco gospel. É reconhecimento.
A resposta do prefeito, ao sugerir que o povo de axé se sentisse representado em outros palcos, ignorou a dimensão simbólica da questão. Nossos cantos não são repertório genérico. Nossos louvores são dirigidos aos Orixás, carregam ancestralidade, memória e pertencimento. Samba nasce de terreiro, mas não substitui o direito de existir enquanto religião.
Após a repercussão, houve pedido de desculpas e a promessa de uma homenagem histórica. Ainda assim, o sentimento que permanece é o de que o reconhecimento não pode ser pontual nem simbólico apenas. Ele precisa ser político, público e permanente.
Por isso, no próximo dia 14 de janeiro, às 11h, lideranças religiosas, movimentos sociais e defensores da diversidade se reúnem diante da Prefeitura do Rio, na Cidade Nova, para um abraço simbólico. Um gesto firme e coletivo que afirma presença, história e dignidade.
Esse ato tem nome, tem corpo e tem memória. Essa gente somos nós.
É o povo que construiu a cidade, que sustentou sua cultura, que transformou fé em festa e resistência em identidade. Não se trata de confronto, mas de afirmação. Não se trata de privilégio, mas de equidade.
No dia 14, o abraço não é contra ninguém. É a favor da laicidade, do respeito e da verdade histórica. Porque quando dizem essa gente, é preciso responder com clareza e união: Essa gente somos nós.
Axé para todos!




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